Simpatia de amor fechada a cadeado

Na cidade de Roma, jovens colocam cadeados em uma ponte para lá de romântica - e jogam a chave fora

Solange Cavalcante, especial para o iG São Paulo

Solange Cavalcante
Detalhe das frases escritas nos cadeados

Federico era apenas mais um garoto comum da cidade de Roma, tímido demais para atrair as garotas. Quando se apaixonava, escrevia milhares de cartas românticas, que nunca tinha coragem de enviar. Um dia, perguntou a sua tia Anna, professora de História, se Roma tinha alguma lenda de amor. Ela disse que não. Então Federico resolveu criar uma lenda urbana ele próprio. Escreveu a estória de um casal apaixonado que engancha um cadeado num dos postes de luz da Ponte Mílvio e joga a chave no rio Tíber para que seu amor dure para sempre. Federico transformou a ideia no livro "Te quero", em 1996. Em 2007, o livro virou filme com Riccardo Scamarcio, o ator mais lindo do cinema italiano no momento. A mania dos cadeados virou febre. Estava criada a lenda. Foi assim que o garoto tímido deu lugar a Federico Moccia, o escritor preferido dos adolescentes, na Itália.

A Ponte Mílvio – alguns a chamam Mílvia – passa sobre o Tíber, rio símbolo de Roma, e fica na região norte da cidade, bem perto do Estádio Olímpico. Ao todo, a ponte tem dez postes, todos carregados de cadeados de todas as cores e tamanhos, que foram pouco a pouco sendo colocados ali pelos casais apaixonados. Uns são até presos por correntes grossas, como aquelas de moto. Muitos casais escrevem seus nomes nos cadeados ou deixam bilhetes com mensagens. Os muros da ponte servem como um grande mural, onde cada um escreve seu nome e uma mensagem carinhosa.

Para quem se esquece de levar o cadeado para a sua simpatia de amor, é possível comprá-lo com um dos diversos ambulantes que trabalham na ponte. Os preços variam entre 1 e 10 euros. Os de 10 euros (cerca de trinta reais) dariam para trancar uma casa, de tão grandes. Em cada banquinha os ambulantes mantêm um pincel atômico à disposição para quem queira escrever nos cadeados.

Há dois anos, um dos lampiões até caiu com o peso de tanto amor. Na época, a prefeitura quis mudar os cadeados de lugar. Afinal de contas, a Ponte Mílvio tem quase dois mil anos, e uma providência precisava ser tomada para resolver o problema daquela invasão de cadeados. Não adiantou. A garotada apaixonada protestou e os cadeados ficaram lá mesmo, passando a ser considerados um “bem cultural da cidade de Roma”.

Solange Cavalcante
Montes de cadeados e casal. A promessa de amor eterno

Histórias

A Ponte Mílvio é a ponte mais antiga de Roma e está nos registros históricos desde 206 a.C. Foi ali que Constantino, em 312 d.C., fez com que seus soldados usassem, pela primeira vez, o símbolo da cruz cristã nos escudos, na batalha contra Maxêncio. Constantino venceu a batalha e tornou-se imperador. Até mesmo Giuseppe Garibaldi, conhecido dos brasileiros, tem participação na história da ponte. Em 1849, ele explodiu parte dela para defender Roma dos franceses.

Noemi, 20, e Benjamin, 19, um casal de turistas suíços, estão juntos há dois anos. Só vão ficar em Roma uma semana, mas no roteiro da viagem incluíram ir à Ponte Mílvio para a simpatia. Fecham seu cadeado num lampião, jogam as chaves nas águas verdes do Tíber e se beijam. “Espero que dê tudo certo”, ele diz. Além deles, os jovens bolivianos Yuvinca e Israel também aparecem, compram um cadeado e tiram fotos. “Fazemos fé para o amor durar”, torcem.

Gianni e Francesca têm 16 anos e moram em Roma. Faz uma semana que estão juntos. Ele é tímido, e não quer falar sobre o namoro. Mas compra um cadeado enorme, vermelho, e escreve nele algo como “juntos para sempre”. “Fiquei surpresa”, confessa Francesca. “Não esperava que ele se declarasse assim, nem que fosse aqui”. Gianni desconversa e os dois se afastam. Claro, querem um momento a sós para atirar as chaves no rio, sem ninguém por perto fazendo perguntas.

Mas não são todos que gostam da moda dos cadeados. Alvaro, professor de Italiano, olha com tristeza para a massa compacta de ferro colorido: “Não li o livro de Moccia nem vi o filme com Riccardo Scamarcio. Desconfio de tudo o que seja massificado. Esta ponte era conhecida porque mudou a História, e agora só se lembram dela pelos cadeados”, lamenta.

O professor reclama dos garotos ricos que enchem o local à noite, roncando suas Ferrari. De fato, depois do sucesso do livro de Moccia e do filme de Scamarcio, a Ponte Mílvio virou um point para os adolescentes romanos, e uma passarela de gente bonita.

Solange Cavalcante
Historiados de Roma é contra a colocação de cadeados na ponte Mílvio

Alguns dizem que prender cadeados nos postes das pontes não é uma invenção de Federico Moccia. Conta-se que, na cidade de Firenze, os aspirantes a oficial da Academia Scuola di Sanità costumavam enganchar o cadeado de seus armários nos postes da chamada Ponte Vecchio. Depois, jogavam a chave no rio para nunca mais terem que voltar para o quartel.

Para tentar conter a polêmica sobre a conservação do patrimônio, foram criados sites onde os namorados podem colocar virtualmente seus cadeados, como o www.lucchettipontemilvio. No www.unlucchettoxsempre (um cadeado para sempre, em Italiano), é possível colocar cadeados em monumentos não somente da Itália, mas do mundo todo.

Além de Roma, Milão (na Ponte della Sirenetta, ou Sereiazinha), Ferrara, Bolzano, Viterbo e várias outras cidades italianas já têm, cada um, uma ponte para os casais apaixonados colocarem seu cadeados.

 

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